sexta-feira, 21 de junho de 2013

Campinas: os Netos da Revolução

Ontem eu fiquei um pouco chateado. Mesmo sem foco, acho muito legal que todo mundo esteja se sentindo no direito de ir prá passeata e cada um levar a sua pauta. Acho que é isso que significa "ocupar", não é?

Agora duas partes desse post incrivelmente longo: fatos e pensamentos.

Fatos:
Quando chegamos na prefeitura, a multidão parou... não entendi bem o que estava acontecendo. Estava escuro, eu estava longe e não deu pra ver nada. Corre-corre, ouvimos algumas explosões que pareciam fogos de artifício. De repente, uma galera evadindo. Meu time saiu da frente do colégio, e foi pro fundo do Largo das Andorinhas. Mais explosões, corre-corre e de repente (isso a 70m da prefeitura) o nariz arde, o olho lacrimeja e meu time novamente recua. De um outro ângulo, comecei a entender que tinha uma turma querendo muito jogar pedras e rojões na prefeitura. De repente, estava eu na esquina da Benjamin Constant com a Luzitânia. O tumulto começou a aumentar, então decidi que eu não iria ficar lá vendo aquele festival de quebradeira. Eu não vou ficar longe de casa, dar audiência pra catástrofes despropositadas e ainda por cima levar resto de bomba de gás na cara, a não ser que tivesse uma causa muito clara e importante para isso (o que, obviamente, não tinha). Só que decidimos sair pela Luzitânia, em direção à Orozimbo Maia. E o caminho pra lá estava... gaseificado. Bom, uma vez que só tínhamos uma rota de fuga restante - em direção à Glicério - fomos embora por lá mesmo. 40 minutos a pé pra casa, o que foi ótimo prá gente refletir sobre o que tinha acontecido.
Chegando em casa, fui atrás do facebook e da TV. Queria saber o que estava acontecendo. E aí vi que tava rolando saques, quebradeira do Palácio dos Jequitibás e algum idiota quebrou o ponto de ônibus em frente à prefeitura, que *eu uso para pegar ônibus*. A evasão da Equipe T2 havia sido uma decisão acertada, no fim de tudo.

Pensamentos:

  • A Globo está definitivamente explorando essas imagens de quebra-quebra, como uma espécie de Datena político. O Brasil agora se divide entre "vândalos" e "da paz", e o discurso "alguns vândalos blá blá blá" se espalhou. 
  • Concordando ou não com as bandeiras de cada um, é ótimo que todo mundo se sinta no direito de ser representado pelo ato.
  • Só não entendi (sem entrar no mérito da questão, é claro), o que coisas como o impeachment da Dilma tem a ver com a questão do transporte público (e, ainda mais, como o prefeito poderia ajudar nessa questão), e no que xingar o Ronaldo vai ajudar na questão da copa. Pelo bem e pelo mal, parece que realmente a turma "saiu do Facebook".
  • Quanto às pessoas que se aproveitam de um sentimento completamente honesto de cada um (de querer ocupar as ruas) para depredar o ponto de ônibus, saquear loja ou brincar de guerrinha provocando fisicamente a polícia: já falaram que é ódio social, conspiração da direita, vandalismo aleatório, e sempre com argumentos muito factíveis.
  • E agora todo mundo vai se acusar de tentativa de golpe: "a globo quer dar um golpe!", "o PT quer dar um golpe"... independente de quem vá dar o golpe, vai ser um golpe de judô: a força da massa está, definitivamente, agindo contra a própria massa.
  • Esse "anti-partidarismo" não está legal. Verdade que os PSTUs e PCOs da vida adoram colocar uma bandeira na frente da manifestação, e obviamente eles não representam a turma que estava lá (que tinha saído do Facebook). Mas, pior que ter um monte de partidos, é ser proibido ter partidos. Diz que é "filho da revolução", mas esqueceu da história da própria revolução? Poser!
  • Agora os comentários gerais são que "os outros não têm pauta", mas sem hipocrisia nenhuma, minha pauta, ao estar lá, era mostrar que é possível estar. Feito isso, e diante da quebradeira, meu trabalho por lá estava terminado.
  • O prefeito de Campinas abaixou o preço da passagem antes de ter uma manifestação sobre isso, e ainda por cima preparou a cidade inteira para receber a manifestação. Nesse ponto, ele está fazendo o que deveria. Sem algum argumento, fica difícil acusá-lo de "populista".
Conclusões:
Ainda estou me decidindo sobre tudo o que eu acho. De forma geral, parece haver uma grande confusão entre o que é "indivíduo", o que é "povo", o que é "polícia", o que é "aquele policial específico", o que é "política", o que é "os políticos" e o que é "aquele político específico".

De minha parte, eu, assim como ontem e todos os dias anteriores, vou hoje fazer um mundo melhor, do jeito que eu acho, do jeito que eu posso.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu não entendi o fim.

Ao que parece não se pode agradar a todos, nem proteger a todos, nem respeitar e nem sequer conhecer todos. Para as vítimas desse limite inevitável, só resta optar, friamente e todos os dias, por preocupar-se apenas com pessoas especiais. Para nosso herói, a verdade é que todas as suas ações haviam sido calculadas e suas consequências, medidas, assim como as de todas as outras pessoas. Ainda assim, diante de uma corte de pessoas que se dispunham a julgá-lo, só lhe restava culpar as circunstâncias e pedir perdão aos deuses. Foi absolvido pelas circunstâncias e pelos deuses, mas não por si mesmo - não pelo crime, mas por sua atitude frente ao julgamento.

Talvez aquela viagem já tivesse dado as lições que deveria dar, então era hora de voltar. Nosso herói arrumou suas coisas todas em uma mochila não muito grande e buscou uma vaga no próximo navio. Um pouco antes de embarcar, recebeu uma carta que dizia que o mundo havia mudado bastante, e para que pensasse bem antes de decidir deixar sua viagem.

"Deixar sua viagem?"

O céu era azul, o Sol nascia e se punha todos os dias, as pessoas ficavam felizes e tristes como em qualquer lugar, e na verdade mesmo naquela viagem nada tinha sido feito que não pudesse ter sido feito em qualquer outro lugar. A viagem mesmo fora apenas uma decisão um pouco inconsequente feita há um tempo atrás, mas depois de algum tempo o que era para ser a renovação aos poucos foi se tornando lar.

Enquanto pensava sozinho, foi abordado por aquele mesmo velho que o fascinara antes. Sabia que era triste deixá-lo, então despediu-se.

"Se quiser voltar, estaremos sempre aqui dispostos a recebê-lo", disse o velho.
"Eu não quero", disse o herói, farto de mentiras. "Mas um dia posso querer.".

Nosso herói embarcou e voltou a sua terra natal.

Não entendeu bem o fim. Para ele, a história não terminou, só deu lugar a outra, mas também isso já era algo que acontecia quase todos os dias. Seu inimigo não foi vencido. As pessoas continuam sendo felizes e tristes. A viagem, que não era para ser espiritual, acabou sendo, mas não parou por aí: nosso herói se tornou herói em sua própria terra natal.

Sua motivação continuou a mesma, seus pensamentos também, mas aquela sensação de que deveria fazer algo muito grande para que suas ações fossem reconhecidas havia passado. Finalmente poderia terminar seu livro.

"... e, no fim, eu continuo me divertindo. FIM".

- Mas, bem que você gosta de um aplauso, não é?

Nosso herói levantou a cabeça e viu seu amigo, revolucionário cético, que havia sido atirado ao mar durante a viagem de ida. Dessa vez, optou por não assassinar discretamente o companheiro, e ao invés disso deu-lhe o livro para ler.

- Eu não entendi o fim. Você viaja, faz um monte de coisas, volta e aí passa a fazer as mesmas coisas, mas vendo o mundo de um jeito diferente? Sua história é completamente clichê!

Era verdade. Para contar sua própria história, nosso herói havia recorrido ao mais infame dos recursos literários, e sua canastrice havia sido desmascaradas logo pelo primeiro leitor. Mas, já sabia, não se pode agradar a todos, e algumas decisões têm que ser tomadas. Suas motivações reais não eram compartilhadas por ninguém, e algumas eram até mesmo criminosas.

"Azar", pensou nosso herói. "O livro termina, mas a vida continua. A vida não é um livro. O personagem do livro é só um personagem. Eu não, eu sou um herói de verdade".

Nosso herói passou mais alguns meses sem entender o fim do livro, o fim da viagem e as coisas que mudaram depois da volta. Ainda não sabia, mas ficaria assim por mais alguns anos, talvez décadas. Sua honestidade heróica o impedia de acreditar naquilo tudo que tinha escrito. O início, o meio e o final, na verdade mesmo, ficaram sem ser entendidos.

FIM





domingo, 1 de julho de 2012

O Inexorável Prelúdio Para Um Final Dramático

Chegado seu tempo, nosso herói foi levado à corte para ser julgado pelo assassinato de outras pessoas. Como tinha agido por legítima defesa, e mais ainda, para salvar o povoado, foi absolvido e solto. Estava determinado, até de um jeito teimoso, a não deixar aquele julgamento se transformar numa grande reflexão sobre o "homem contra o sistema".
A história que tentava construir parecia sempre contada de trás para frente, com a conclusão sendo quase sempre mais importante que o fato.


Já tinha provado ser capaz de enfrentar bandidos, ursos e até mesmo o mais poderoso dos inimigos, aquele invencível e sem objetivo. E qual seria a razão disso tudo?
Tentava, obviamente, se convencer desde o começo de tudo que a jornada era somente um ato inconsequente e espontâneo, mas na história do mundo, tanto o real quanto o do imaginário, nenhuma jornada acontece por acaso; talvez não por uma razão, mas certamente pelas consequências da jornada.
E as consequências são exatamente aquilo que são: consequências. Há o tempo de causá-las e há o tempo de contempla-las, e o próprio processo de contemplar as consequências é um ato que vai gerar consequências mais adiante.
Sem caráter e nem noção, fora capaz de escrever um livro que chegava quase até o final. Provavelmente não seria um livro lido por mais ninguém, porque os fatos ali narrados não eram muito inovadores: não há nada de especial em um outro herói que enfrenta os mais difíceis desafio que, embora físicos, inevitavelmente refletem estágios de sua própria evolução espiritual. Nada de novo em questionar suas próprias percepções do mundo e trocá-las por percepções um pouco diferentes. E, por fim, nada diferente em fugir de sua própria história e então descobrir-se agente dessa mesma história.
Algo, porém, faltava.
Uma cena de drama. Que culminaria em lágrimas para todos os leitores.
Seu último capítulo se aproximava.

(Foto tirada de um outro site, mas eu esqueci de anotar o link)

terça-feira, 20 de março de 2012

Aquele pedaço da História

Nosso herói ficou algum tempo naquela mesma vila. Alguns gostavam de sua presença, outros não gostavam, e alguns nem tomaram conhecimento. Ele mesmo estava lá somente por ter ficado intrigado com as palavras de sabedoria que vinham daquele homem que não muito tempo atrás não passava de um ilustre desconhecido. Sempre se encontravam na taverna, sem combinar, só porque a cerveja era boa e as cadeiras eram confortáveis. Uma conversa em particular o levou a pensar que nada do que ele mesmo poderia escrever em seu livro, por mais que fosse uma reprodução fiel de sua viagem, seria original. Já haviam muitos viajantes que saíram de seu país para conhecer o mundo, muitos arqui-inimigos que mal podiam ser derrotados, muitos gladiadores bondosos que ajudavam seus pares, muitos heróis que libertaram o povo de tiranos, muitas conversas profundas em tavernas e, principalmente, muitas dúvidas que surgem e são, ou não, solucionadas no decorrer da história.
- E, pelo que eu estou vendo, seu livro está cheio desses clichês!
- O que você chama de clichê?
- Clichê, meu caro, é quando um escritor usa um monte de técnicas conhecidas com o único objetivo de tentar fazer a sua história parecer melhor. Por exemplo, quando a história termina sem resolver os problemas que surgiram no enredo.
E foi então que nosso herói percebeu que a explosão de criatividade que o levara a tentar escrever um livro não resultou em mais que um apanhado de repetições de histórias que já se foram. Sentiu um profundo sentimento de solidão, como se não tivesse sido capaz de aprender nada por suas observações, apenas pelas histórias que já havia lido ou escutado. Invejou as dançarinas do palco, que dançavam uma dança típica da região, e pareciam totalmente imersas em uma cultura, ao contrário de tentarem fugir de toda forma de cultura que possuíssem.
- Elas ensaiaram mesmo muito bem, mas não era bem assim que se dançava há setenta anos.
- E como é que se dançava há setenta anos?
- Não era no palco, era para dançar em roda, todos juntos. E não tinha esses passos tão bonitos, era só a turma toda pulando no salão, cada um do jeito que quisesse.
- E a música, era desse jeito mesmo?
- Quem tocava, também estava pulando junto, então a música era muito mais torta do que essa que está tocando.
- Fico curioso para saber como era.
- Eu era o mais novo da turma, e já faz muitos anos. Hoje em dia, todos os outros já morreram ou estão muito doentes. Esse é um pedaço da história que não vai aparecer em livros e que não vai ter grupo de dança pra repetir. Mas fomos nós que inventamos aquela dança... você vê como elas trançam as pernas? eu fui o primeiro a fazer isso, mas foi só porque eu estava muito apertado para ir ao banheiro mas não queria parar de dançar. Os outros foram copiando por piada, e fazendo a mesma coisa em outros lugares, o passo foi se espalhando e hoje em dia eles chamam de herança cultural. E tem gente que passa anos para aprender a técnica certa.
Nosso herói embarcou numa sopa de pensamentos que o levou a acreditar que nunca seria capaz de criar nada sem estar perto de seus amigos mais próximos, num lugar em que tivesse liberdade completa de se expressar como bem desejasse.
- Por que você acha que precisa dessas pessoas e lugares para criar algo?
Nesse momento, sete soldados entraram na taverna procurando pelo assassino que havia matado cinco pessoas na praça da cidade, mas nosso herói não se alterou.
- Está faltando um pedaço da história.


(foto emprestada daqui)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O amanhecer do escrúpulo

A viagem até a vila foi tranquila, mas logo ao chegar nosso herói se deparou com o motivo que o fizera ir até lá: bem no meio da praça, o terrível bando de criminosos estava brandindo suas armas, obrigando o povo a entregar suas colheitas. Mesmo sabendo estar praticamente sozinho contra vários bandidos, nosso herói investiu contra eles. Com uma flecha, abateu o que parecia ser o líder. Ainda teve tempo de atingir uma flecha no joelho de mais um até se ver cercado de bandidos.
- Rendam-se agora - disse ele - e poupem suas vidas!
Estando em muito maior número, os bandidos não se renderam e atacaram por todas as direções. Um a um, tombaram, até que os cinco últimos restantes bateram em retirada. O bandido mais lento ainda foi atingido por uma flechada certeira no pescoço e agonizou por alguns momentos até morrer perto do portão da cidade.  A vila silenciosamente ignorou a morte dos bandidos, e os corpos foram retirados das ruas somente mais tarde, por um caridoso vigário. A luta, porém, deixou para nosso herói uma cicatriz.

- Eu matei um monte de gente.
Já tinha matado antes. Mas nunca porque outra pessoa tivesse pedido - sempre fora por sua própria vontade. Já tinha matado pessoas, ursos e pés de alface e nunca tinha tido problemas com isso. Já tinha matado por raiva, por dinheiro e por fome, mas nunca por favor.
Antes que sua história se tornasse um monólogo sobre a ética, nosso herói conheceu na taverna um personagem que o ensinaria muitas coisas, e que em algum tempo viria a morrer de uma forma épica gerando a comoção geral da platéia.
- Posso ler esse livro?
- Ainda estou terminando.
- Eu insisto.
- Ei, devolva isso!
- Pelo jeito você está bem longe de terminar. Você vai viajar?
- Estou viajando.
- Vindo de onde?
Em certos momentos da vida, todas as frases parecem metáforas para alguma coisa muito mais complexa. Por saber disso, a própria simplicidade da pergunta mais simples e sincera se torna uma incrível demonstração de sabedoria. Nesse momento específico da história, qualquer resposta causaria uma série de impressões profundas tanto para os personagens envolvidos quanto para o leitor: "não interessa", "não sei", "de muito longe daqui", "de outro lugar do mundo", "de um lugar chamado...".
Nosso herói conseguiu tomar seu livro ainda no começo das mãos de seu interlocutor. Percebeu que ele tinha cabelos grisalhos e um olhar profundo, que parecia ter marcas da sabedoria to tempo. E sabia que embora se parecesse com um sábio não passava de um ilustre desconhecido que fizera, sem querer, uma pergunta de duplo sentido.
- Você ajudou muito esta vila ao acabar com aqueles bandidos. Obrigado.
- Não tem de que.
- Mas você não parece estar muito feliz com isso
- Não estou.
- Para todos nós, o fim do bando foi uma coisa muito boa. Mas para você parece ter sido diferente. Suas ações ajudaram muito a todos nós, mas às vezes aquele que ajuda também precisa de ajuda, e geralmente é um outro tipo de ajuda.
- Continuo não estando feliz.
- Ajudar a si mesmo pode ser bem mais difícil que ajudar aos outros, mesmo porque quando é com os outros você pode ir ser muito menos profundo e já achar que seu trabalho está feito. E está, porque a partir do pequeno nó que você tira da vida de outra pessoa, a própria pessoa já consegue caminhar sozinha. Mas quando é com você mesmo, você é que vai começar essa caminhada para a própria felicidade.
Por algum motivo até então inexplicável, nosso herói controlou seus impulsos de matança e não degolou o velho. Acabou sendo uma decisão acertada, porque dois segundos depois apareceu por lá o guerreiro que havia conhecido na arena de ursos.
- Olha só quem está aí!! Vejo que vocês já se conhecem!! Argh, pai, venha pra casa. Você está bêbado.
Os dois se despediram e saíram da taverna. Nosso herói voltou a escrever seu livro, agora com uma nova idéia na cabeça: "já sei! Vou terminar o primeiro capítulo com uma sutil frase de efeito que vai determinar o curso da história inteira".

(figura roubada de algum site sobre Conan, o Bárbaro)





segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um clichê fora do padrão

Depois de ter chegado a seu destino, nosso herói começou a conhecer pessoas, e, após uma semana, descobriu que tinha passado sete dias inteiros repetindo o ciclo "conhece nova pessoa, conversa com ela, se impressiona com algumas coisas, discorda de outras, tira uma lição, volta para o começo". Haviam sido necessários dois encontros memoráveis para que percebesse que a viagem não havia sido uma decisão tão inconsequente quanto ele desejava, de forma que vivê-la como um personagem infantil francês estava parecendo ser um desperdício de tempo.

Por isso, decidiu que faria algo que não poderia fazer de forma alguma em sua terra natal. Inscreveu-se para lutar contra ursos ferozes na arena da cidade.

Perguntar sobre o motivo de suas atitudes poderia vir de um amigo, para ajudar a clarear seus pensamentos, ou de um inimigo, que usaria sua evidente confusão para combatê-lo. Sabia, então, que deveria manter o foco em lutar contra ursos, e não no motivo de estar lutando.

Quando foi jogado na arena, viu a multidão que o observava e gritava seu nome - a não ser por alguns poucos que carregavam cartazes com mensagens como "Eu estou torcendo pelo urso".

Desembainhou sua espada e esperou que a fera finalmente entrasse na arena. Quando o próximo portão foi aberto, descobriu que haveria um outro combatente humano. Dois humanos contra dois ursos, pensou. Nada mais justo.

Quando o terceiro portão foi aberto, vieram a galope seis ursos. A espada dos dois combatentes humanos parecia muito pequena frente ao perigo iminente que surgia. Sabendo que não haveria mais como desistir, os ridículos bípedes investiram contra seus enormes inimigos.

Os dois primeiros ursos foram imediatamente atingidos entre os olhos, e caíram. Nosso herói rapidamente recuperou sua espada e degolou o urso seguinte, mas seu companheiro combatente não foi tão rápido e, numa patada, foi arremessado a três metros de distância (para o deleite daquela ala minoritária da platéia...). Desarmado e ferido, seria uma presa fácil, mas nosso herói virou as costas para o urso que naturalmente iria atacá-lo para chutar a pata de um dos ursos que o matariam. Nosso herói foi atingido por uma patada nas costas, mas não derrubou sua espada e, mesmo ferido, conseguiu matar os dois ursos com golpes certeiros no pescoço e no coração. O último urso, sentindo o perigo iminente, tentou atacá-lo, mas teve suas patas dianteiras decepadas pela mesma espada que havia executado seus companheiros.

- Obrigado - disse o combatente caído, enquanto a multidão (menos aquele seleto grupo...) ia ao delírio
- Não tem de que.
- Você luta muito bem.
- Hm. Vamos embora daqui.

Nosso herói lutava para não se deixar dominar pelo sentimento lisongeiro de ter salvado uma vida de uma forma sensacional na frente de uma multidão e ainda ter reconhecimento sincero por isso.

- Sabe, eu venho de uma vila a um dia de viagem daqui.
- Hm
- Nós temos problemas por lá... há um bando de criminosos que nos ataca e leva nossas colheitas e nosso dinheiro. Por isso eu venho aqui lutar: levo o dinheiro para nossa vila, para comprar comida para nossas crianças. Você pode nos ajudar a acabar com esse bando?
- Não, acho que é melhor você procurar outro protetor.
- Mas você é uma das poucas pessoas no mundo que tem habilidade suficiente para fazer isso!!!
- Tenho outras coisas para fazer.
- Você tem muito poder em suas mãos, mas não consegue perceber quanta diferença é capaz de fazer na vida das pessoas ao usá-lo para propósitos bons. Você é como um personagem de livro, daqueles que só precisam de um bom mestre e em breve estarão canalizando toda essa energia para o bem.

Nosso herói se afastou. Se irritou. Parou para pensar em todas as histórias que já foram escritas, e descobriu que seria bem difícil não viver pelo menos uma delas. Percebeu que sua vida seria inevitavelmente, um mosaico caótico de histórias já escritas.

Decidiu então aceitar a tarefa de proteger a vila. Pelo menos, não seria um moleque pedante dando lições de moral em pessoas que só querem viver suas vidas.

(imagem roubada do ThisNext)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Um inimigo imbatível e sem objetivo

O inimigo entrou no quarto por uma fresta na janela, numa noite de Lua nova, em silêncio absoluto, pouco depois de nosso herói ter decidido que escrever a primeira cena do livro já era esforço suficiente para aquela viagem e apagado a vela para dormir. Sussurrou uma provocação com sua voz assustadora:
-- É uma bela cena! Pena que ninguém nunca vai vê-la!
O herói despertou e abriu os olhos, mas continuou sem ver nada. Sabia que seu inimigo estava lá.
-- Como você chegou até aqui?
-- Da mesma forma que você.
Todos os heróis têm um inimigo. Geralmente, o inimigo tem um objetivo claro e grandioso, que envolve prejudicar o herói, mas não é o caso deste inimigo em questão. Se ele tinha um objetivo, o herói não sabia, mas, com certeza, a presença do inimigo era algo a se evitar. Infelizmente, o herói também não sabia de nenhuma antiga lenda, artefato mágico ou ponto fraco que pudesse ser utilizado para derrotá-lo. O inimigo, sem objetivo, também era imbatível. Até então, nosso herói tinha apenas conseguido repeli-lo temporariamente com a ajuda de alguns companheiros.
-- O que veio fazer aqui?
-- O que você veio fazer aqui?
-- Eu não preciso de motivos para guiar minha vida!
-- Você sabe tão bem quanto eu que isso é mentira.
Silêncio.
Nosso herói ficou de pé, lentamente. Seu inimigo parecia saber mais sobre ele do que ele mesmo. Mesmo sem caráter e nem noção, sentia que havia, de fato, algum objetivo envolvido naquela jornada.
Os ventos gelados anunciavam que em poucos dias o navio chegaria às Terras Geladas Perto do Pólo Norte, e nosso herói tentava, em vão, se proteger do frio e da ameaça trazida pela presença de seu inimigo. Um livro não é mesmo tão divertido, quando não tem leitores.
Nosso herói sentia a energia maligna de seu inimigo aumentar a cada segundo, e se preparava para suportar algum golpe poderoso a qualquer momento.
-- Desta vez você não tem a ajuda de seus companheiros!
De fato, não tinha. Estava há vários meses numa viagem da qual poucos retornavam. Não era justo esperar que ninguém...
-- Você será esquecido!
Era uma possibilidade real. Honestamente, nosso herói sabia que não era possível saber exatamente o que cada um de seus companheiros estaria pensando naquele exato momento. Se realmente estariam torcendo. Se realmente quiseram torcer em qualquer momento. Se realmente eram seus companheiros. Se tudo não passou de um plano. Se todo o seu passado não acontecera só na sua própria imaginação. Seu inimigo se preparava para desferir o golpe final:
-- Você se tornou vítima da sua própria tragédia! Nunca pôde saber se seus amigos foram realmente aquilo que diziam ser, ou se eram apenas parte dos meus planos para trazê-lo até aqui!
Embora não pudesse ver nada com tanta escuridão, nosso herói arregalou os olhos.
-- E é por isso que eu sei... -- disse ele -- ... que eles sempre estarão comigo!


Silêncio.
O inimigo não respondeu mais.
Nosso herói preferiu acreditar que ele foi embora, e então sentiu uma certa solidão.
Em alguns dias, chegaria finalmente às Terras Geladas Perto do Pólo Norte.

(figura roubada do Constancezahn)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

As Incríveis Aventuras do Herói Sem Caráter e Nem Noção Nas Terras Geladas Perto do Pólo Norte


O herói dessa história não foi inspirado por um livro. Não foi inspirado por uma guerra. Não foi inspirado por uma mulher. Nem pelo desejo de ser alguém melhor. Na verdade mesmo, não foi inspirado por coisa nenhuma que não fosse sua própria maneira irrequieta de ver o mundo.
Como não era tonto como um filósofo fanático, nem como um soldado nacionalista, nem como um adolescente apaixonado, e como tinha uma vida relativamente confortável, pensou muito antes de entrar (de maneira completamente lícita) num navio que o levaria às Terras Geladas Perto do Pólo Norte.
A viagem levou sete meses, o que deu tempo suficiente para o nosso herói pensar bastante sobre o que estava fazendo. Ele teve oportunidades para desistir, mas já estava bem determinado a não fazer uma coisa dessas.
Durante a viagem, conheceu um amigo, cujo nome não é importante para a história porque a participação dele se resume a uma conversa que, embora curta, provavelmente determinará o curso de toda a história que se segue:
-- Porque você está nesse navio? Estava tudo bem na sua casa, e você escolheu uma incerteza que poderia passar completamente em branco na sua vida!
-- Era incerto tanto ficar quanto vir. As coisas mudam, as pessoas mudam... a vida não é uma incerteza?
-- Pare com essa filosofia de butequim, você sabe muito bem do que estou falando!
-- Honestamente, às vezes eu não faço a menor ideia, porque todos os argumentos possíveis que permitem concluir que o melhor é vir são refutáveis. Mas eu também não saberia porque fiquei, porque todos os argumentos possíveis para ficar são igualmente refutáveis.
-- Então, porque você veio?
-- Acho que vai ser divertido.
-- Você está tomou uma decisão que vai mudar sua vida toda baseado na diversão que pode tirar dela?
-- Não fazemos isso todos os dias?
-- Já falei pra parar com essa filosofia de butequim!
-- Se eu soubesse porque estou indo, provavelmente não entraria no navio. Acho que vai ser divertido. Continuo com as mesmas incertezas que tinha antes.
-- Que mania essa sua de querer saber de tudo, fechar todas as possibilidades!
Nesse momento, nosso herói se irritou com seu amigo e o empurrou no mar. Como o navio era muito alto, ninguém ouviu o barulho dele caindo. Ninguém nunca notou sua falta e nosso herói, por pura falta de caráter, também não sentiu remorso nenhum. (o amigo, na verdade, foi resgatado por golfinhos e lutou, com vitória, pela independência e pela igualdade social em diversas ex-colônias européias).
Sem ter com quem falar por algum tempo, nosso herói decidiu que escreveria um diário de sua viagem. Mas como diários são para meninas de oito anos, decidiu que seria na verdade um romance cheio de drama, aventura e comédia, no qual ele seria o herói, porque daí então poderia (em palavras suas) "sobrescrever a realidade e poupar o leitor do entediante cotidiano". Em seu romance, decidiu que o personagem principal deveria ter um amigo, que não seria (pelo menos em princípio) muito importante para a história, mas seria um ótimo coadjuvante e ajudaria a explicar os pensamentos do personagem principal em diálogos (afinal, quem fala sozinho é gente louca).
E sete meses depois tinha escrito... a primeira cena! Em que o personagem principal, num escritório mal iluminado, com os pés sobre a mesa, usando um sobretudo cinza e um chapéu que cobrindo parcialmente o rosto, recebe a visita repentina de um sujeito de terno que lhe pergunta com voz grave:
-- Você vai viajar?
E responde:
-- É o que dizem...


(imagem: roubada do Oráculo Lenormand)

domingo, 4 de setembro de 2011

Perdão

Tudo o que eu faço é esperar. Mas eu sei que nem tudo o que eu espero vai acontecer (e isso também é esperar alguma coisa). As coisas das quais eu não espero nada, é porque elas não fazem parte do meu mundo.
 
E porque o mundo de cada um é somente uma grande torcida pelo que vai acontecer, perdoar nem faz sentido, porque não existia culpa no começo de tudo. Mesmo sabendo disso, perdoar a si pode ser mais difícil que perdoar ao outro.
Tudo o que resta é erguer a cabeça e ver o Sol nascendo. Novo dia. Novo jogo.

(figura: animatoons.com)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

007 contra o Carimbador Maluco

Hoje foi um dia muito feliz pra mim, porque meu visto ficou pronto (e agora, o plunct-plact-zum pode partir sem problema algum). Também foi emocionante, porque comecei a encaixotar as coisas em casa. Limpei minha mesa no laboratório na faculdade. Daqui a pouco vou pegar o avião, mas vai ser pra Londrina (que vai estar só um pouquinho mais quente que o Canadá, mas sem calefação).

Ontem eu estava comprando frutas e pensei numa coisa muito interessante. Eu vou ter que aprender os nomes dos tipos de frutas no Canadá. E eles provavelmente não vão ser traduções literais. Não vai ter "Italy grapes", nem "Lime Oranges", e nem "Apple Bananas" (e nem "Short Bananas" nem "Silver Bananas"). E vai ser muito louco comer aquelas frutas que só aparecem em filme, tipo "grapefruit" e "blue berry".

Da última vez que eu viajei de avião, deu vontade de segurar o assento na hora da decolagem e gritar: UAAAAAUUU, QUE LEGAAAAL, EU TO VOAAAANDOOOOOOOO!!! (se eu fosse um cachorro, botava a língua pra fora da janela!)

Próximo passo: encontrar um novo lugar pra morar.