terça-feira, 13 de setembro de 2011

As Incríveis Aventuras do Herói Sem Caráter e Nem Noção Nas Terras Geladas Perto do Pólo Norte


O herói dessa história não foi inspirado por um livro. Não foi inspirado por uma guerra. Não foi inspirado por uma mulher. Nem pelo desejo de ser alguém melhor. Na verdade mesmo, não foi inspirado por coisa nenhuma que não fosse sua própria maneira irrequieta de ver o mundo.
Como não era tonto como um filósofo fanático, nem como um soldado nacionalista, nem como um adolescente apaixonado, e como tinha uma vida relativamente confortável, pensou muito antes de entrar (de maneira completamente lícita) num navio que o levaria às Terras Geladas Perto do Pólo Norte.
A viagem levou sete meses, o que deu tempo suficiente para o nosso herói pensar bastante sobre o que estava fazendo. Ele teve oportunidades para desistir, mas já estava bem determinado a não fazer uma coisa dessas.
Durante a viagem, conheceu um amigo, cujo nome não é importante para a história porque a participação dele se resume a uma conversa que, embora curta, provavelmente determinará o curso de toda a história que se segue:
-- Porque você está nesse navio? Estava tudo bem na sua casa, e você escolheu uma incerteza que poderia passar completamente em branco na sua vida!
-- Era incerto tanto ficar quanto vir. As coisas mudam, as pessoas mudam... a vida não é uma incerteza?
-- Pare com essa filosofia de butequim, você sabe muito bem do que estou falando!
-- Honestamente, às vezes eu não faço a menor ideia, porque todos os argumentos possíveis que permitem concluir que o melhor é vir são refutáveis. Mas eu também não saberia porque fiquei, porque todos os argumentos possíveis para ficar são igualmente refutáveis.
-- Então, porque você veio?
-- Acho que vai ser divertido.
-- Você está tomou uma decisão que vai mudar sua vida toda baseado na diversão que pode tirar dela?
-- Não fazemos isso todos os dias?
-- Já falei pra parar com essa filosofia de butequim!
-- Se eu soubesse porque estou indo, provavelmente não entraria no navio. Acho que vai ser divertido. Continuo com as mesmas incertezas que tinha antes.
-- Que mania essa sua de querer saber de tudo, fechar todas as possibilidades!
Nesse momento, nosso herói se irritou com seu amigo e o empurrou no mar. Como o navio era muito alto, ninguém ouviu o barulho dele caindo. Ninguém nunca notou sua falta e nosso herói, por pura falta de caráter, também não sentiu remorso nenhum. (o amigo, na verdade, foi resgatado por golfinhos e lutou, com vitória, pela independência e pela igualdade social em diversas ex-colônias européias).
Sem ter com quem falar por algum tempo, nosso herói decidiu que escreveria um diário de sua viagem. Mas como diários são para meninas de oito anos, decidiu que seria na verdade um romance cheio de drama, aventura e comédia, no qual ele seria o herói, porque daí então poderia (em palavras suas) "sobrescrever a realidade e poupar o leitor do entediante cotidiano". Em seu romance, decidiu que o personagem principal deveria ter um amigo, que não seria (pelo menos em princípio) muito importante para a história, mas seria um ótimo coadjuvante e ajudaria a explicar os pensamentos do personagem principal em diálogos (afinal, quem fala sozinho é gente louca).
E sete meses depois tinha escrito... a primeira cena! Em que o personagem principal, num escritório mal iluminado, com os pés sobre a mesa, usando um sobretudo cinza e um chapéu que cobrindo parcialmente o rosto, recebe a visita repentina de um sujeito de terno que lhe pergunta com voz grave:
-- Você vai viajar?
E responde:
-- É o que dizem...


(imagem: roubada do Oráculo Lenormand)

4 comentários:

  1. Foi! E aguarde, vai ter continuação!!! :)

    ResponderExcluir
  2. MANO QUE ORGULHOOOOOOOO!!!
    de boa, bem sincero. achei incrível! se eu lesse isso numa livraria, na contra-capa, ou se eu lesse como sinopse de um livro, com certeza eu compraria! muito animal! tem estilo é da hora ler, é inteligente! parece que eu tenho um amigo escritor! que um dia vai ser best seller! e depois vai ser bem velho e jogar xadrez na academia brasileira de letras.

    ResponderExcluir
  3. Assassino, insensível, fanfarrão!

    Sem mais, me despeço.

    ResponderExcluir

Obrigado pelo seu comentário