terça-feira, 4 de outubro de 2011

Um inimigo imbatível e sem objetivo

O inimigo entrou no quarto por uma fresta na janela, numa noite de Lua nova, em silêncio absoluto, pouco depois de nosso herói ter decidido que escrever a primeira cena do livro já era esforço suficiente para aquela viagem e apagado a vela para dormir. Sussurrou uma provocação com sua voz assustadora:
-- É uma bela cena! Pena que ninguém nunca vai vê-la!
O herói despertou e abriu os olhos, mas continuou sem ver nada. Sabia que seu inimigo estava lá.
-- Como você chegou até aqui?
-- Da mesma forma que você.
Todos os heróis têm um inimigo. Geralmente, o inimigo tem um objetivo claro e grandioso, que envolve prejudicar o herói, mas não é o caso deste inimigo em questão. Se ele tinha um objetivo, o herói não sabia, mas, com certeza, a presença do inimigo era algo a se evitar. Infelizmente, o herói também não sabia de nenhuma antiga lenda, artefato mágico ou ponto fraco que pudesse ser utilizado para derrotá-lo. O inimigo, sem objetivo, também era imbatível. Até então, nosso herói tinha apenas conseguido repeli-lo temporariamente com a ajuda de alguns companheiros.
-- O que veio fazer aqui?
-- O que você veio fazer aqui?
-- Eu não preciso de motivos para guiar minha vida!
-- Você sabe tão bem quanto eu que isso é mentira.
Silêncio.
Nosso herói ficou de pé, lentamente. Seu inimigo parecia saber mais sobre ele do que ele mesmo. Mesmo sem caráter e nem noção, sentia que havia, de fato, algum objetivo envolvido naquela jornada.
Os ventos gelados anunciavam que em poucos dias o navio chegaria às Terras Geladas Perto do Pólo Norte, e nosso herói tentava, em vão, se proteger do frio e da ameaça trazida pela presença de seu inimigo. Um livro não é mesmo tão divertido, quando não tem leitores.
Nosso herói sentia a energia maligna de seu inimigo aumentar a cada segundo, e se preparava para suportar algum golpe poderoso a qualquer momento.
-- Desta vez você não tem a ajuda de seus companheiros!
De fato, não tinha. Estava há vários meses numa viagem da qual poucos retornavam. Não era justo esperar que ninguém...
-- Você será esquecido!
Era uma possibilidade real. Honestamente, nosso herói sabia que não era possível saber exatamente o que cada um de seus companheiros estaria pensando naquele exato momento. Se realmente estariam torcendo. Se realmente quiseram torcer em qualquer momento. Se realmente eram seus companheiros. Se tudo não passou de um plano. Se todo o seu passado não acontecera só na sua própria imaginação. Seu inimigo se preparava para desferir o golpe final:
-- Você se tornou vítima da sua própria tragédia! Nunca pôde saber se seus amigos foram realmente aquilo que diziam ser, ou se eram apenas parte dos meus planos para trazê-lo até aqui!
Embora não pudesse ver nada com tanta escuridão, nosso herói arregalou os olhos.
-- E é por isso que eu sei... -- disse ele -- ... que eles sempre estarão comigo!


Silêncio.
O inimigo não respondeu mais.
Nosso herói preferiu acreditar que ele foi embora, e então sentiu uma certa solidão.
Em alguns dias, chegaria finalmente às Terras Geladas Perto do Pólo Norte.

(figura roubada do Constancezahn)

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