quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O amanhecer do escrúpulo

A viagem até a vila foi tranquila, mas logo ao chegar nosso herói se deparou com o motivo que o fizera ir até lá: bem no meio da praça, o terrível bando de criminosos estava brandindo suas armas, obrigando o povo a entregar suas colheitas. Mesmo sabendo estar praticamente sozinho contra vários bandidos, nosso herói investiu contra eles. Com uma flecha, abateu o que parecia ser o líder. Ainda teve tempo de atingir uma flecha no joelho de mais um até se ver cercado de bandidos.
- Rendam-se agora - disse ele - e poupem suas vidas!
Estando em muito maior número, os bandidos não se renderam e atacaram por todas as direções. Um a um, tombaram, até que os cinco últimos restantes bateram em retirada. O bandido mais lento ainda foi atingido por uma flechada certeira no pescoço e agonizou por alguns momentos até morrer perto do portão da cidade.  A vila silenciosamente ignorou a morte dos bandidos, e os corpos foram retirados das ruas somente mais tarde, por um caridoso vigário. A luta, porém, deixou para nosso herói uma cicatriz.

- Eu matei um monte de gente.
Já tinha matado antes. Mas nunca porque outra pessoa tivesse pedido - sempre fora por sua própria vontade. Já tinha matado pessoas, ursos e pés de alface e nunca tinha tido problemas com isso. Já tinha matado por raiva, por dinheiro e por fome, mas nunca por favor.
Antes que sua história se tornasse um monólogo sobre a ética, nosso herói conheceu na taverna um personagem que o ensinaria muitas coisas, e que em algum tempo viria a morrer de uma forma épica gerando a comoção geral da platéia.
- Posso ler esse livro?
- Ainda estou terminando.
- Eu insisto.
- Ei, devolva isso!
- Pelo jeito você está bem longe de terminar. Você vai viajar?
- Estou viajando.
- Vindo de onde?
Em certos momentos da vida, todas as frases parecem metáforas para alguma coisa muito mais complexa. Por saber disso, a própria simplicidade da pergunta mais simples e sincera se torna uma incrível demonstração de sabedoria. Nesse momento específico da história, qualquer resposta causaria uma série de impressões profundas tanto para os personagens envolvidos quanto para o leitor: "não interessa", "não sei", "de muito longe daqui", "de outro lugar do mundo", "de um lugar chamado...".
Nosso herói conseguiu tomar seu livro ainda no começo das mãos de seu interlocutor. Percebeu que ele tinha cabelos grisalhos e um olhar profundo, que parecia ter marcas da sabedoria to tempo. E sabia que embora se parecesse com um sábio não passava de um ilustre desconhecido que fizera, sem querer, uma pergunta de duplo sentido.
- Você ajudou muito esta vila ao acabar com aqueles bandidos. Obrigado.
- Não tem de que.
- Mas você não parece estar muito feliz com isso
- Não estou.
- Para todos nós, o fim do bando foi uma coisa muito boa. Mas para você parece ter sido diferente. Suas ações ajudaram muito a todos nós, mas às vezes aquele que ajuda também precisa de ajuda, e geralmente é um outro tipo de ajuda.
- Continuo não estando feliz.
- Ajudar a si mesmo pode ser bem mais difícil que ajudar aos outros, mesmo porque quando é com os outros você pode ir ser muito menos profundo e já achar que seu trabalho está feito. E está, porque a partir do pequeno nó que você tira da vida de outra pessoa, a própria pessoa já consegue caminhar sozinha. Mas quando é com você mesmo, você é que vai começar essa caminhada para a própria felicidade.
Por algum motivo até então inexplicável, nosso herói controlou seus impulsos de matança e não degolou o velho. Acabou sendo uma decisão acertada, porque dois segundos depois apareceu por lá o guerreiro que havia conhecido na arena de ursos.
- Olha só quem está aí!! Vejo que vocês já se conhecem!! Argh, pai, venha pra casa. Você está bêbado.
Os dois se despediram e saíram da taverna. Nosso herói voltou a escrever seu livro, agora com uma nova idéia na cabeça: "já sei! Vou terminar o primeiro capítulo com uma sutil frase de efeito que vai determinar o curso da história inteira".

(figura roubada de algum site sobre Conan, o Bárbaro)





Um comentário:

  1. M.A.N.O! "PLAC, PLAC, PLAC, PLAC"! (palmas)
    sem mais...."PLAC, PLAC, PLAC! (de pé)

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