terça-feira, 20 de março de 2012

Aquele pedaço da História

Nosso herói ficou algum tempo naquela mesma vila. Alguns gostavam de sua presença, outros não gostavam, e alguns nem tomaram conhecimento. Ele mesmo estava lá somente por ter ficado intrigado com as palavras de sabedoria que vinham daquele homem que não muito tempo atrás não passava de um ilustre desconhecido. Sempre se encontravam na taverna, sem combinar, só porque a cerveja era boa e as cadeiras eram confortáveis. Uma conversa em particular o levou a pensar que nada do que ele mesmo poderia escrever em seu livro, por mais que fosse uma reprodução fiel de sua viagem, seria original. Já haviam muitos viajantes que saíram de seu país para conhecer o mundo, muitos arqui-inimigos que mal podiam ser derrotados, muitos gladiadores bondosos que ajudavam seus pares, muitos heróis que libertaram o povo de tiranos, muitas conversas profundas em tavernas e, principalmente, muitas dúvidas que surgem e são, ou não, solucionadas no decorrer da história.
- E, pelo que eu estou vendo, seu livro está cheio desses clichês!
- O que você chama de clichê?
- Clichê, meu caro, é quando um escritor usa um monte de técnicas conhecidas com o único objetivo de tentar fazer a sua história parecer melhor. Por exemplo, quando a história termina sem resolver os problemas que surgiram no enredo.
E foi então que nosso herói percebeu que a explosão de criatividade que o levara a tentar escrever um livro não resultou em mais que um apanhado de repetições de histórias que já se foram. Sentiu um profundo sentimento de solidão, como se não tivesse sido capaz de aprender nada por suas observações, apenas pelas histórias que já havia lido ou escutado. Invejou as dançarinas do palco, que dançavam uma dança típica da região, e pareciam totalmente imersas em uma cultura, ao contrário de tentarem fugir de toda forma de cultura que possuíssem.
- Elas ensaiaram mesmo muito bem, mas não era bem assim que se dançava há setenta anos.
- E como é que se dançava há setenta anos?
- Não era no palco, era para dançar em roda, todos juntos. E não tinha esses passos tão bonitos, era só a turma toda pulando no salão, cada um do jeito que quisesse.
- E a música, era desse jeito mesmo?
- Quem tocava, também estava pulando junto, então a música era muito mais torta do que essa que está tocando.
- Fico curioso para saber como era.
- Eu era o mais novo da turma, e já faz muitos anos. Hoje em dia, todos os outros já morreram ou estão muito doentes. Esse é um pedaço da história que não vai aparecer em livros e que não vai ter grupo de dança pra repetir. Mas fomos nós que inventamos aquela dança... você vê como elas trançam as pernas? eu fui o primeiro a fazer isso, mas foi só porque eu estava muito apertado para ir ao banheiro mas não queria parar de dançar. Os outros foram copiando por piada, e fazendo a mesma coisa em outros lugares, o passo foi se espalhando e hoje em dia eles chamam de herança cultural. E tem gente que passa anos para aprender a técnica certa.
Nosso herói embarcou numa sopa de pensamentos que o levou a acreditar que nunca seria capaz de criar nada sem estar perto de seus amigos mais próximos, num lugar em que tivesse liberdade completa de se expressar como bem desejasse.
- Por que você acha que precisa dessas pessoas e lugares para criar algo?
Nesse momento, sete soldados entraram na taverna procurando pelo assassino que havia matado cinco pessoas na praça da cidade, mas nosso herói não se alterou.
- Está faltando um pedaço da história.


(foto emprestada daqui)

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