terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu não entendi o fim.

Ao que parece não se pode agradar a todos, nem proteger a todos, nem respeitar e nem sequer conhecer todos. Para as vítimas desse limite inevitável, só resta optar, friamente e todos os dias, por preocupar-se apenas com pessoas especiais. Para nosso herói, a verdade é que todas as suas ações haviam sido calculadas e suas consequências, medidas, assim como as de todas as outras pessoas. Ainda assim, diante de uma corte de pessoas que se dispunham a julgá-lo, só lhe restava culpar as circunstâncias e pedir perdão aos deuses. Foi absolvido pelas circunstâncias e pelos deuses, mas não por si mesmo - não pelo crime, mas por sua atitude frente ao julgamento.

Talvez aquela viagem já tivesse dado as lições que deveria dar, então era hora de voltar. Nosso herói arrumou suas coisas todas em uma mochila não muito grande e buscou uma vaga no próximo navio. Um pouco antes de embarcar, recebeu uma carta que dizia que o mundo havia mudado bastante, e para que pensasse bem antes de decidir deixar sua viagem.

"Deixar sua viagem?"

O céu era azul, o Sol nascia e se punha todos os dias, as pessoas ficavam felizes e tristes como em qualquer lugar, e na verdade mesmo naquela viagem nada tinha sido feito que não pudesse ter sido feito em qualquer outro lugar. A viagem mesmo fora apenas uma decisão um pouco inconsequente feita há um tempo atrás, mas depois de algum tempo o que era para ser a renovação aos poucos foi se tornando lar.

Enquanto pensava sozinho, foi abordado por aquele mesmo velho que o fascinara antes. Sabia que era triste deixá-lo, então despediu-se.

"Se quiser voltar, estaremos sempre aqui dispostos a recebê-lo", disse o velho.
"Eu não quero", disse o herói, farto de mentiras. "Mas um dia posso querer.".

Nosso herói embarcou e voltou a sua terra natal.

Não entendeu bem o fim. Para ele, a história não terminou, só deu lugar a outra, mas também isso já era algo que acontecia quase todos os dias. Seu inimigo não foi vencido. As pessoas continuam sendo felizes e tristes. A viagem, que não era para ser espiritual, acabou sendo, mas não parou por aí: nosso herói se tornou herói em sua própria terra natal.

Sua motivação continuou a mesma, seus pensamentos também, mas aquela sensação de que deveria fazer algo muito grande para que suas ações fossem reconhecidas havia passado. Finalmente poderia terminar seu livro.

"... e, no fim, eu continuo me divertindo. FIM".

- Mas, bem que você gosta de um aplauso, não é?

Nosso herói levantou a cabeça e viu seu amigo, revolucionário cético, que havia sido atirado ao mar durante a viagem de ida. Dessa vez, optou por não assassinar discretamente o companheiro, e ao invés disso deu-lhe o livro para ler.

- Eu não entendi o fim. Você viaja, faz um monte de coisas, volta e aí passa a fazer as mesmas coisas, mas vendo o mundo de um jeito diferente? Sua história é completamente clichê!

Era verdade. Para contar sua própria história, nosso herói havia recorrido ao mais infame dos recursos literários, e sua canastrice havia sido desmascaradas logo pelo primeiro leitor. Mas, já sabia, não se pode agradar a todos, e algumas decisões têm que ser tomadas. Suas motivações reais não eram compartilhadas por ninguém, e algumas eram até mesmo criminosas.

"Azar", pensou nosso herói. "O livro termina, mas a vida continua. A vida não é um livro. O personagem do livro é só um personagem. Eu não, eu sou um herói de verdade".

Nosso herói passou mais alguns meses sem entender o fim do livro, o fim da viagem e as coisas que mudaram depois da volta. Ainda não sabia, mas ficaria assim por mais alguns anos, talvez décadas. Sua honestidade heróica o impedia de acreditar naquilo tudo que tinha escrito. O início, o meio e o final, na verdade mesmo, ficaram sem ser entendidos.

FIM





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